7 de maio a 03 de junho de 2017

Conjunto Nacional, São Paulo, SP
Galeria Saída Rua Augusta

Diante da História dos Outros

Retratos de Afeto é um conjunto de imagens e textos que, à primeira impressão, pode parecer estranho. Aliás, pode até chocar alguns. Não é e nunca foi essa a intenção deste projeto, cujo principal objetivo é mostrar a verdadeira importância do Hospital de Câncer de Barretos, que silenciosamente desenvolve um trabalho sem precedentes na medicina brasileira. Uma meta foi fixada há décadas e a iniciativa tornou-se uma das mais importantes do país. Mas, curiosamente, sua história está aqui registrada em textos e fotografias que merecem nossa atenção, já que são estas que atraem mais rápido a leitura, quase sempre apressada sobre tudo aquilo que nos cerca.

O homem é o único animal que tem consciência da morte. Com isso, vive, produz, sofre, cria e, frequentemente, nada disso permanece. Por outro lado, sabemos que uma fotografia vive por muito tempo – daí a importância que assumiu a imagem técnica desde que foi introduzida, na primeira metade do século 19. Através da fotografia podemos ampliar, mesmo que momentaneamente, nossa existência na vida dos outros. Essa é uma das máximas defendidas pelo filósofo Vilém Flusser. Dessa forma, pretendo enfatizar que um livro, com seus textos e imagens, proporciona uma longevidade imprevisível ao seu conteúdo, sendo passível de se tornar parte da história dos homens.

A sociedade contemporânea é permeada por imagens técnicas que invadem nosso cotidiano, nas quais nem sempre constatamos alguma realidade ou verdade. O momento atual é de pura e íntima exibição de instantes frágeis que colocam o cidadão diante de alguma efêmera beleza.

As imagens veiculadas massivamente nas redes sociais, principais centros de distribuição da produção contemporânea, quase sempre são fugazes e escapam de qualquer análise ou reflexão mais profunda. A produção imagética hoje é flagrantemente banal. Tem algum deslumbramento, mas falta mistério, já que é desprovida da possibilidade de colocar o sujeito diante de uma realidade cruel e sem filtros de embelezamento.

Numa época em que tudo é apresentado pela mídia a partir do conceito de perfeição e beleza, choca entrar em contato com imagens que permitem que a diferença e a coragem se mostrem com outra sensibilidade. Uma rara autenticidade que se torna experiência do impossível, um enfrentamento da mais absoluta cumplicidade e compaixão. Os registros de Retratos de Afeto são documentos de um processo realizado num determinado recorte temporal, entre 2012 e 2015, e, se pensarmos com os olhos do futuro, poderão tornar-se uma referência daquilo que era desconhecido no momento em que foram realizados. Certa vez, o fotógrafo norte-americano Duane Michals relatou que a maioria dos fotógrafos mostrava-lhe imagens do que ele já conhecia perfeitamente, como pôres do sol e bustos de mulher, e ponderou: não devemos nos contentar com essas visões simples, mas sim contradizê-las, ou seja, buscar instaurar outras visualidades.

Ao nos depararmos com as imagens do cotidiano, destacamos que o senso comum é a generalização de um mundo idealizado, sem dores ou temores. Na verdade, isso é a verdadeira fuga de um enfrentamento necessário, que se faz cada vez mais urgente, de trazer à superfície do visível os problemas e conflitos humanos que abalam as vivências nucleares. Essas rupturas imprevistas desestruturam os grupos familiares, mas há uma tendência da sociedade em mascarar as agonias e enfatizar imagens que reproduzam as aparências de um mundo visível aceitável.

O discurso do poder tende a criar uma sensação de que tudo está bem, no lugar certo, em sintonia com as falsas ilusões propagadas pelo mundo midiático fortemente controlado pelos sistemas dominantes. Os retratos de afeto de Valdir Cruz aqui publicados não são óbvios nem estáveis. Pelo contrário: são tensos e exigem do sujeito um olhar sereno e comprometido com o contexto em que estão inseridos. São humanos em situações delicadas e frágeis que relatam fragmentos de suas experiências com a satisfação de quem descortina algum mistério que emerge do reino da memória.

Os textos também circunscrevem algumas imagens. Cada retratado selecionou algumas passagens de suas histórias de vida que, junto com o retrato, suscitam uma significativa sensação de superação. Vale lembrar que essas pessoas se propuseram a ficar diante da câmera e permitiram um registro visual e sonoro com a finalidade de compartilhar e colocar em evidência algum segredo e alguma intimidade. Na verdade, cada retrato evoca um enigma que nos desafia a questionar o verdadeiro sentido da vida.

Os retratos, em sua maioria muito otimistas, criam uma proximidade afetiva que aflora nossa percepção e fortalece a compreensão da essência daquilo que nos interessa de fato. Claro, há uma tensão nas imagens. Afinal, estamos diante de um conjunto de retratos que têm uma significativa densidade. A fotografia como meio de investigação torna-se aqui um grito silencioso. Não quer se exibir como tragédia, mas busca conscientizar e transformar o receptor. Ou seja, cada um de nós.

Nesse sentido, o ensaio Retratos de Afeto ganha a dimensão – humana e estética – de uma grande reportagem sobre um tema que efetivamente nos toca e nos aflige. Exige uma ação e uma reflexão; pede um engajamento político e social. Em plena era da circulação de imagens plastificadas e simplificadas, estamos diante de um trabalho vigoroso que tem amplitude social e mostra a importância da fotografia documental como instrumento de memória e história.

Rubens Fernandes Junior
Pesquisador e curador de fotografia

Before the Story of Others

Portraits of Affection is a set of images and texts which, at first sight, may appear strange. It may even be shocking to some. This is not and never was the aim of this project whose main goal is to show the true importance of the Barretos Cancer Hospital, which has for many years been carrying out an unprecedented work in Brazilian medicine. A goal was set decades ago and the initiative became one of the most important in the country. Its history is recorded here in texts and photographs that deserve our concentrated attention and which call for our careful perusal and reading in these current times when our attention normally rushes busily from one thing to the next.

Man is the only animal with a consciousness of death. With this awareness, we live, produce, suffer, and create, and often no trace of any of this endures. On the other hand, we know that a photograph lives for a long time— hence the importance assumed by the technical image since it was introduced in the first half of the 19th century. Through the photograph we can enlarge, if only momentarily, our life and the lives of others. This is one of the maxims set forth by philosopher Vilém Flusser. Any book with texts and pictures, therefore, provides an unforeseen longevity for its content, making it possible for that story to become part of the history of humankind.

Contemporary society is permeated by technical images that invade our daily life, though we do not always find any reality or truth in them. The current moment is one of pure, intimate display of fragile moments that place the viewer before some instance of ephemeral beauty. The pictures disseminated en masse in the social networks, the main distribution hubs of contemporary production, are nearly always fleeting and not open to any more profound analysis or reflection. Today the production of images is blatantly banal. Although they have some dazzle there is a lack of mystery since the image is presented through beautifying filters that erase cruel reality, stripping it of its possibility.

At a time when everything is presented by the media based on the concept of perfection and beauty, it is shocking to come into contact with images that reveal difference and courage through another sensibility. This involves a rare authenticity that provides an experience of the impossible, a coming-to-grips with utter simplicity and compassion. The photographs and texts presented in Portraits of Affection are documents of a process carried out in a determined time span, between 2012 and 2015, and, if we think with the eyes of the future, they can become a reference of something that was unknown at the moment they were made. On one occasion, North American photographer Duane Michals remarked that most photographers showed him pictures of things he already knew perfectly well, like sunsets and female busts, and then he realized that we should not be contented with these simple views, but should rather contradict them, seeking to instate other visualities.

When it comes to pictures of daily life, the common approach is to present a generalization of an idealized world, without pains or fears. This is actually an escape from a necessary and increasingly urgent confrontation that would lend visibility to the human problems and conflicts that jar our most essential life experience. These unforeseen ruptures destructure the most basic social groups, and the tendency of society is to mask the anguish and emphasize images that reproduce the appearance of an acceptable visible world.

The discourse of power tends to create a sensation that everything is well, in the right place, in tune with the false illusions propagated by the mediatic world firmly controlled by the dominant systems. Valdir Cruz’s portraits of affection published here are not obvious or stable. On the contrary: they are tense and require a serene gaze from an observer who feels a commitment to their surrounding context. They are humans in delicate and fragile situations who relate fragments of their experiences with the satisfaction of someone unveiling some mystery that emerges from the realm of memory.

The texts also contain some images. Each person portrayed related some passages from his or her life story, which, together with the portrait, engender a significant sense of overcoming. It must be remembered that these people decided to come before the camera and to allow the making of a visual and audio record with the aim of sharing and revealing some secret and some intimacy. Indeed, each portrait evokes an enigma that challenges us to question the true meaning of life.

The people portrayed, most of whom are very optimistic, engender a closeness that flourishes in our perception and strengthens our understanding of the essence of what is of greatest interest to us. There is, of course, a tension in the images. After all, we find ourselves before a significantly dense set of portraits. Photography as a medium of investigation here becomes a silent shout. It does not wish to exhibit itself as a tragedy, but rather seeks to raise awareness and transform the receiver—namely, each one of us.

In this sense, the essay Portraits of Affection is an extensive human and aesthetic report on a theme that both touches and troubles us. It requires action and a reflection; it demands a political and social engagement. At the height of the era of the circulation of plasticized and simplified images, we are in the presence of a vigorous work of far-reaching social significance, demonstrating the importance of documentary photography as a tool of memory and history.

Rubens Fernandes Junior
Researcher and Curator of Photography

Joice e Josilene Felix de Santana - Barretos, SP – 2013

DERLIS ABEL VERA LAGRANÃ
E SUA MÃE RUTH DEL CARMEN LAGRANÃ DE VERA - BARRETOS, SP  2012


E SUA IRMÃ LIZ PAOLA LAGRANÃ - BARRETOS, SP  2013

Beatriz Carvalho de Freitas - e sua mãe Zelma Cássia de Carvalho - BARRETOS, SP 2012 

MARIA LÚCIA BARBOZA DE SOUZA
BARRETOS, SP  2015

MARIA AUGUSTA XAVIER DOS SANTOS
Juazeiro, BA – 2015

Emanuela Caroline de Oliveira Vasconcelos
E seu pai, Manoel Messias Nunes Vasconcelos - Porto Velho, RO – 2015 


E seu filho, João Manoel Vasconcelos de Athaíde - Porto Velho, RO – 2016 

ADHEMAR DA SILVEIRA ROCHA
Barretos, SP – 2012

Maria Alice Alves de Oliveira - Juazeiro, BA – 2015

Maria de Fátima Pereira da Silva - Juazeiro, BA – 2015

ANIDA RISTON BRAUN e sua filha - PORTO VELHO, RO  2015

DIEGO ARAÚJO RABELO - Barretos, SP – 2013

FRANCISCA DOS SANTOS - Juazeiro, BA – 2015

MARIA MADALENA RODRIGUES DA SILVA - Juazeiro, BA – 2015

Ymayãy Surui - e seu filho Lourival Oybebe Surui - Porto Velho, RO – 2015

Isabely Alves Modesto - e sua mãe Talita Alves Modesto - Barretos, SP – 2012-13

ARTIST     GALLERY      PUBLICATIONS     SELECTED REVIEWS       EXHIBITIONS     COLLECTIONS     CONTACT